
Documento atribuído ao general Mário Fernandes detalhava ações contra o presidente eleito, o vice-presidente e um ministro do STF. Investigações apontaram monitoramento de autoridades e preparativos para uma operação que não chegou a ser executada.
A tentativa de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito presidente em 2022, envolveu articulações que ultrapassaram os questionamentos públicos ao resultado das urnas. As investigações da Polícia Federal identificaram um plano que previa o assassinato de Lula, do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Conhecido como Punhal Verde e Amarelo, o planejamento foi elaborado após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro (PL) e integrava, segundo os investigadores, uma articulação mais ampla para impedir a transferência de poder e manter o então presidente no cargo.
O caso veio a público em novembro de 2024, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Contragolpe. A investigação reuniu documentos, mensagens e registros de monitoramento que indicavam preparativos para ações contra as autoridades.
Documento foi elaborado por general do governo Bolsonaro
O plano foi atribuído ao general da reserva Mário Fernandes, que ocupou o cargo de secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência durante o governo Bolsonaro.
Segundo a Polícia Federal, o arquivo foi criado em 9 de novembro de 2022 e impresso no Palácio do Planalto. O documento descrevia possibilidades operacionais para capturar ou matar as autoridades consideradas obstáculos à concretização da ruptura institucional.
Entre as alternativas registradas estavam o uso de armas de fogo, explosivos e envenenamento. A investigação também apontou o levantamento de informações sobre a rotina e a segurança de Alexandre de Moraes.
O planejamento não se limitava à descrição de objetivos. Conforme o relatório policial, o material incluía referências a recursos, pessoal, comunicações e procedimentos necessários para uma operação clandestina.
Monitoramento e preparação das ações
A Polícia Federal identificou indícios de que o planejamento avançou para atividades de campo. Os investigadores relacionaram o documento a mensagens trocadas entre militares e Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, além de registros de localização e comunicações em aplicativos.
Uma das ações investigadas recebeu o nome de Operação Copa 2022 e envolvia o monitoramento de autoridades. Segundo a acusação apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), os preparativos estavam relacionados à intenção de impedir a posse do governo eleito.
A investigação apontou a participação de militares das Forças Especiais do Exército, conhecidos como “kids pretos”, grupo com treinamento para operações de alto risco.
General admitiu autoria, mas negou compartilhar o plano
Em depoimento ao STF, em julho de 2025, Mário Fernandes confirmou que havia elaborado o documento. Ele, entretanto, afirmou que o arquivo representava um estudo pessoal digitalizado e negou tê-lo apresentado ou compartilhado com outras pessoas.
O general declarou que imprimiu o material para lê-lo no papel e que depois o rasgou. Também negou ter apresentado o planejamento a Jair Bolsonaro.
A versão foi confrontada com elementos reunidos durante a investigação, incluindo informações sobre impressões do documento e contatos entre integrantes do grupo. A autoria do arquivo foi admitida pelo general, mas ele contestou a interpretação de que o material representasse uma operação compartilhada.
O que a PGR afirmou sobre Bolsonaro?
Na denúncia apresentada ao STF em fevereiro de 2025, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que Bolsonaro tinha conhecimento do plano e havia concordado com o planejamento.
A acusação apontou diálogos e outros elementos que, na avaliação da PGR, indicavam que o então presidente acompanhava a evolução da articulação. A defesa de Bolsonaro negou participação ou autorização para os assassinatos.
É importante diferenciar a acusação relativa ao plano de assassinatos das condenações pelos crimes da trama golpista. Em setembro de 2025, Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. A responsabilização por esses crimes não deve ser confundida automaticamente com uma condenação específica por ordenar as mortes previstas no Punhal Verde e Amarelo.
Plano não chegou a ser executado
As mortes planejadas não ocorreram. Lula e Alckmin tomaram posse em 1º de janeiro de 2023, após a transição de governo.
De acordo com a denúncia da PGR, os preparativos chegaram a uma etapa avançada em dezembro de 2022, mas a operação não foi concluída. A acusação apontou que os articuladores não conseguiram obter o apoio necessário do comando do Exército para levar adiante a ruptura.
O caso permanece como um dos episódios mais graves revelados pelas investigações sobre a tentativa de golpe, por envolver planejamento operacional contra autoridades eleitas e integrantes do Judiciário.
A apuração permitiu reconstruir parte das articulações que ocorreram após as eleições de 2022 e expôs a dimensão das ações que, segundo os investigadores, tinham como objetivo impedir a posse do presidente eleito e preservar Bolsonaro no poder.